Tudo começou quando, cuidadosamente, acariciei o meu cabelo liso, escorrido até ao peito. Ele assume uma cor brilhante e apresenta um aspecto saudável. Estava em casa no calor da minha sala. Sentei-me no sofá. Naquele sofá. Naquele sofá de textura fofa e macia, de cor leve, de cor clara. Sentei-me no sofá que "comprei" à anos, que nada me assusta, pois ele tem memórias, tem histórias. Memórias já muito antigas de quando ainda era miúda e brincava com bonecas. Traz voltar os sonhos da altura, os passeios pelo parque com a prima da idade, naquele sofá... As conversas em família e as conversas da família que se estendiam a largas horas eram quase sempre lá. As brincadeiras... Os sorrisos. As lágrimas. Os segredos tão nossos, tão dele... Traz memórias... Traz histórias...
O aroma fresco que pairava no ar permitiu-me voar. - (adoro voar!) As janelas semi-cerradas traziam a pequena brisa que acompanhava o meu sentir. Ali, respirava-se liberdade. Satisfação. Saboreava o momento enquanto, gentilmente, fazia caracóis ao cabelo. O toque era distante mas colhia proximidade. Um toque que bem conheço, um toque de intimidade.
E nisto, relembrava a infância e tudo o que já vivi. Pensava. Pensamentos sem saudade, sem querer voltar atrás. Queria recordar apenas toda a felicidade que me marcou. Sentia-me bem por estar ali. Não queria aterrar. Mas sabia que teria que acontecer. Adiava. Mais tarde, descontraidamente, apanhei o cabelo como se o fosse atar. Só então reparei o quão grande nó tinha! Achei um abuso ter tanto cabelo enliado num nó tão profundo! Suspirei fortemente e retorci as sobrancelhas com uma careta de terror. - CREDO!, como é que apareceu isto aqui?? - perguntei-me muito indignada. De repente, senti frio. Tive que fechar a janela. Sem entender bem porquê, a sala arrefeceu e senti-me estranha. Fechei os olhos e tentei analisar o sucedido. A confusão de sentimentos dísparos. - A confusão pelo sentimento agora sentido. Era um sentimento indesejável, que não tinha pedido para vir... Depois de muito viajar sobre isto, entendi que o nó faria todo o sentido. Digo que ele representa os maus bocados que atravessamos pela vida. Os nós, são os obstáculos, as dificuldades. Os esforços. Os medos. As quedas. Os nós são as desilusões, as lágrimas. Mas também são a compreensão. Os nós de cabelo são estruturas para compreendemos as falhas e fraquezas que nos mostram o caminho a seguir. Digo que os nós são as raízes que depois nos fazem florescer. E nós precisamos das raízes, pois só assim crescemos... Tentei desfazer o nó mas já eram horas de ir trabalhar.
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